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Covid-19 pode ser transmitido pelo ar, OMS demorou para admitir

Na quinta-feira, 9, a Organização Mundial da Saúde (OMS) finalmente admitiu que o coronavírus pode permanecer no ar em espaços fechados e se espalhar de uma pessoa para outra, mesmo se elas estiverem a um metro e meio de distância. “Houve relatos de surtos de Covid-19 em alguns locais fechados, como restaurantes, boates, locais de culto ou locais de trabalho onde as pessoas podem estar gritando, conversando ou cantando. Nestes surtos, a transmissão de aerossóis, particularmente nesses locais fechados, onde há espaços lotados e inadequadamente ventilados, onde as pessoas infectadas passam longos períodos com outras pessoas, não pode ser descartada”, disse a OMS.

O reconhecimento dessa forma de transmissão é considerado fundamental por especialistas para conter o avanço da doença. Isso porque a descoberta exige que as pessoas tomem cuidados adicionais às recomendações feitas até agora, que incluem usar máscara mesmo se houve a distância mínima recomendada entre você e outras pessoas e manter os ambientes o mais arejados possível.


“Alertar sobre essa forma de transmissão é extremamente importante, principalmente em lugares em que ainda há grande circulação do vírus e a economia começa a abrir. É preciso orientar as pessoas sobre quais são as medidas eficazes de prevenção. Por exemplo, dentro de uma loja, manter o ambiente arejado, garantir que todos estejam de máscara e instalar um sistema de exaustores é muito mais importante e mais barato do que colocar algum tipo de borrifador na porta do local. Em um restaurante, em que as pessoas ficam sem máscara para comer, também é muito importante garantir a renovação do ar.”, disse à VEJA o patologista Paulo Saldiva, professor da Universidade de Medicina da USP e único brasileiro a assinar uma carta aberta à OMS pedindo que a organização reconsiderasse sua posição sobre esse tipo de transmissão.


Até agora, a OMS sustentava que a principal forma de transmissão é por meio do contato com gotículas contaminadas. Essas gotas são partículas grandes e pesadas – ao menos em comparação com os aerossóis, que são tão leves e pequenos que permanecem no ar por um período maior – que geralmente caem no chão ou nas superfícies próximas logo após saírem da boca ou nariz de uma pessoa doente.


Segundo a OMS, a propagação no ar era uma preocupação apenas no ambiente hospitalar, pois alguns procedimentos médicos podem produzir aerossóis. Daí a necessidade de usar a máscara N95, que filtra essas gotículas, e o escudo de proteção. Mas, fora do ambiente hospitalar, não havia esse risco. Assim, estaríamos relativamente seguros ao manter alguns metros de distância dos outros.


A organização insistiu em minimizar o fato mesmo diante de um crescente corpo de evidências e relatos de caso sugerirem que, em espaços internos lotados, o vírus pode permanecer no ar por horas e infectar outras pessoas. Em abril, um estudo feito na China mostrou que apenas uma pessoa infectada dentro de um restaurante completamente fechado foi o suficiente para contaminar outras nove pessoas.

Outro estudo, publicado no mesmo mês, mostrou que a distância mínima estipulada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para prevenir uma pessoa de ser atingida pelas gotículas de saliva de outra, não é suficiente para evitar que pequenas partículas a alcancem. A pesquisa, feita pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, explica que as moléculas menores  – conhecidas como aerossóis – podem viajar por maiores distâncias e demoram mais para se dissipar ou evaporar, dependendo das condições de temperatura e umidade do ambiente.


A mudança de postura aconteceu após a publicação da carta aberta, assinada por 239 cientistas do mundo todo. No documento, direcionada à organização, os pesquisadores elencaram todas as evidências existentes sobre essa forma de transmissão e solicitaram que a OMS reconsiderasse suas orientações sobre prevenção contra o novo coronavírus.