Amazônia em chamas: onde estão os artistas que antes cantavam pela floresta?


A mobilização que ganhou força durante o governo Bolsonaro agora é questionada diante de novos incêndios; a sociedade cobra coerência de quem transformou a defesa ambiental em bandeira pública.
A Amazônia volta a enfrentar o avanço do fogo, e, com ele, ressurge uma questão incômoda: onde estão algumas das vozes mais conhecidas da música, do cinema e da televisão brasileira, que, durante o governo de Jair Bolsonaro, se mobilizavam publicamente em defesa da floresta?
Em outubro de 2026, o problema continua concreto. Segundo a Agência Brasil, o Amazonas registrou 540 novos focos de incêndio em apenas dois dias, 10 e 11 de outubro. A fumaça agravou a qualidade do ar em Manaus, levando a Defesa Civil a emitir um alerta de risco à saúde. O estado também teve situação de emergência reconhecida em 36 municípios.
Diante desse cenário, a cobrança é inevitável. Durante o governo anterior, artistas participaram de manifestações, campanhas e mobilizações ambientais que deram visibilidade internacional à situação da Amazônia. Houve discursos, vídeos, manifestações públicas e iniciativas culturais que colocaram a preservação da floresta no centro do debate político.
Naquele período, a defesa da Amazônia era apresentada por parte do meio artístico como uma causa urgente, que exigia posicionamento público e pressão sobre o governo federal. A pergunta que fica é: se a floresta merecia mobilização ontem, por que não deveria merecer a mesma intensidade hoje?
A preservação ambiental não pode ter lado partidário. Se artistas consideravam legítimo cobrar providências do governo Bolsonaro diante das queimadas, também é legítimo que sejam questionados agora, quando o país volta a registrar incêndios preocupantes. O compromisso com a natureza precisa ser maior do que qualquer simpatia política.
Não se trata de afirmar que todos os artistas estejam calados. Há iniciativas recentes que demonstram a continuidade da mobilização cultural: em junho de 2026, por exemplo, o projeto Playing For Change lançou a música Acontecer, com a participação de artistas como Manu Chao e Alexandre Carlo, em defesa da Amazônia, dos povos indígenas e do planeta.
O questionamento, portanto, não é se existe algum artista atuando, mas se a mobilização pública tem a mesma força, visibilidade e repercussão que teve em outros momentos. E essa comparação precisa ser feita com fatos, considerando manifestações efetivamente publicadas, e não apenas a impressão de quem acompanha as redes sociais.
Ainda assim, a crítica tem fundamento como cobrança de coerência. Quando uma causa ambiental ganha espaço em meio a disputas políticas, é necessário perguntar se o engajamento é permanente ou se sua intensidade muda conforme o governo que ocupa o poder. Essa é uma questão legítima para a imprensa, para a sociedade e para os próprios artistas.
Afinal, a fumaça não escolhe partido. Os animais mortos não distinguem ideologias. As comunidades atingidas pelos incêndios não deixam de sofrer porque o presidente é de esquerda ou de direita. O fogo destrói da mesma maneira, independentemente de quem esteja no comando do país.
Também seria um erro transformar os artistas nos únicos responsáveis por chamar a atenção para a tragédia. Cabe ao governo federal, aos governos estaduais e aos órgãos ambientais prevenir incêndios, fiscalizar áreas vulneráveis, combater ações criminosas e apresentar resultados. A atuação das autoridades deve ser avaliada por suas medidas concretas, seus recursos, sua fiscalização e sua capacidade de proteger a floresta.
Mas quem possui milhões de seguidores e já utilizou essa influência para mobilizar a opinião pública sabe que sua voz pode fazer diferença. Uma publicação pode ampliar uma denúncia, divulgar informações confiáveis, incentivar campanhas de apoio e pressionar por providências. Por isso, a cobrança não é por obediência política, mas por coerência entre o discurso e a prática.
O meio ambiente não pode ser defendido apenas quando a crítica favorece o campo político com o qual determinado artista se identifica. Se a Amazônia era motivo de canções, protestos e manifestações públicas no passado, sua preservação deve continuar merecendo atenção quando as circunstâncias políticas mudam.
A história não absolve nem condena ninguém pelo simples fato de publicar ou deixar de publicar uma mensagem. O que ela permite é comparar discursos, atitudes e compromissos ao longo do tempo. E é justamente essa comparação que a sociedade tem o direito de fazer.
No fim, a pergunta permanece: onde estão as grandes mobilizações, os discursos contundentes e o mesmo entusiasmo de outros tempos?
A resposta não pode ser apenas uma disputa entre direita e esquerda. Precisa passar pelo compromisso real com a floresta, pela responsabilidade dos governantes e pela coerência daqueles que escolheram transformar sua influência em instrumento de mobilização social.
A Amazônia não pertence a um partido, a um presidente ou a uma geração de artistas. É um patrimônio ambiental cuja proteção exige vigilância permanente.
Se a causa era tão importante ontem, continua sendo importante hoje. A floresta não pode depender de quem governa para merecer ser defendida.
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